Seus pais estavam certos, você é especial. A conjunção de fatores que formam a personalidade de uma pessoa também funcionou pra você, forjando esse ser excepcionalmente único. Quem mais passou por tudo isso que você já viveu? Quem pode contar aquela história das almôndegas tão bem? Quem faz aquela cara de Al Pacino doente? Quem demoraria mais pra entender as piadas irônicas? Pode ter certeza que seria fácil transformar a sua vida num livro, ou num filme. Fique satisfeito, tenho certeza que daria até uma trilogia. Se for colocar aquele período que você quis ser baixistas de rockabilly, então, dá até pra fazer um quarto episódio. A questão é dar oportunidade para você se mostrar, localizar alguns conflitos, expor um punhado de ambições, pescar a espontaneidade da sua cara quando não entende do que está falando. Ou quando entende perfeitamente; talvez aquela história da almôndega já sirva pra mostrar o seu potencial como personagem. Você pode ir pra telona, cara.
Não vai se apegar tanto. É só olhar aí pro lado que já encontra os outros “filhotes de mamães”. Fora os não-queridos, os vendedores, os artistas, os míopes, os fãs de Al Pacino, as verdes, os idiotas. São os outros especiais. Você quer virar filme, mas eu também, e aí? Num mundo onde o fluxo é intenso, a gente vai esbarrando com montes de pessoas legais, especiais, toscas e que valem a pena. Cada uma delas lota um DVD com suas histórias e com seus jeitos, e, pra lidar com a quantidade, talvez seja melhor assistirmos pulando uns pedaços. Assim, fica mais fácil de prestar atenção em todo mundo. Ou quase.
Lucas Melo
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